a carta

Flor,

Espero que estas minhas singelas linhas te encontrem bem de saúde junto daqueles que te rodeiam.
Olha, minha filha, a vida por cá vai correndo lentamente, como a água no riacho que fica na terra do mestre Carlos.
A tua mãe continua na sua azáfama com as arrumações da casa, que tanto trabalho nos deu a remodelar, mas foi uma necessidade que, como tu sabes minha filha, já emergia cuidados há muitos dias.
O teu irmão Pedro, como sempre irrequieto e que é próprio da idade do garoto, ainda no outro dia ao descer a ladeira aqui da aldeia, sabes, aquela onde tu e a Mariana costumavam jogar ao arco, desceu-a de bicicleta, bem, de bicicleta uma parte do percurso, pois a outra foi de rojo e partiu um dente. Mais canceras minha filha, mais canceras.
Mas por agora chega de te apoquentar com os nossos problemas e dissabores desta vida que mesmo não sendo a melhor é a que temos.
E tu como estás? Os estudos estão a correr bem? Já resolves-te o problema da água? O pai falou com a senhoria que me disse ir logo pronto, mas sabes como são estas coisas, sempre demoram algum tempo. E as coisas com o Paulo como vão? Olha que ele é um moço honesto e trabalhador. Moços destes já são raros e sabes que a família é uma família de bem e com algumas posses que nós não temos. Minha filha sabes que o pai sempre te deu bons conselhos.
Já me esquecia. Lembras-te do Ti Zé Bimbo, aquele homemzinho corcunda que vive lá na casa junto da igreja, apareceu enforcado na árvore que está no tanque comunitário. Esteve cá a policia e tudo. Há minha filha, fosses tu já doutora e eras tu quem ficava com o caso, assim ficou uma doutora lá da cidade. Nunca se há-de saber o que aconteceu.
Não te quero maçar mais minha Flor. Para a semana o teu tio Ildeberto vai ai e leva-te algum dinheiro. Espero que chegue, pois as coisas não estão fáceis e o pai, ainda, não vendeu o trigo todo.
A mãe e o teu irmão mandam um beijo e que Deus te proteja minha filha.

Do teu pai que tanto te adora

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