o pássaro azul

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

in Textos autobiográficos, de Charles Bukowski, páginas 478/9. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre, L&PM Editores, 2009.

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fui para o bosque

“Fui para o bosque porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar todo o tutano da vida.”
– Henry Thoreau

a carta

Flor,

Espero que estas minhas singelas linhas te encontrem bem de saúde junto daqueles que te rodeiam.
Olha, minha filha, a vida por cá vai correndo lentamente, como a água no riacho que fica na terra do mestre Carlos.
A tua mãe continua na sua azáfama com as arrumações da casa, que tanto trabalho nos deu a remodelar, mas foi uma necessidade que, como tu sabes minha filha, já emergia cuidados há muitos dias.
O teu irmão Pedro, como sempre irrequieto e que é próprio da idade do garoto, ainda no outro dia ao descer a ladeira aqui da aldeia, sabes, aquela onde tu e a Mariana costumavam jogar ao arco, desceu-a de bicicleta, bem, de bicicleta uma parte do percurso, pois a outra foi de rojo e partiu um dente. Mais canceras minha filha, mais canceras.
Mas por agora chega de te apoquentar com os nossos problemas e dissabores desta vida que mesmo não sendo a melhor é a que temos.
E tu como estás? Os estudos estão a correr bem? Já resolves-te o problema da água? O pai falou com a senhoria que me disse ir logo pronto, mas sabes como são estas coisas, sempre demoram algum tempo. E as coisas com o Paulo como vão? Olha que ele é um moço honesto e trabalhador. Moços destes já são raros e sabes que a família é uma família de bem e com algumas posses que nós não temos. Minha filha sabes que o pai sempre te deu bons conselhos.
Já me esquecia. Lembras-te do Ti Zé Bimbo, aquele homemzinho corcunda que vive lá na casa junto da igreja, apareceu enforcado na árvore que está no tanque comunitário. Esteve cá a policia e tudo. Há minha filha, fosses tu já doutora e eras tu quem ficava com o caso, assim ficou uma doutora lá da cidade. Nunca se há-de saber o que aconteceu.
Não te quero maçar mais minha Flor. Para a semana o teu tio Ildeberto vai ai e leva-te algum dinheiro. Espero que chegue, pois as coisas não estão fáceis e o pai, ainda, não vendeu o trigo todo.
A mãe e o teu irmão mandam um beijo e que Deus te proteja minha filha.

Do teu pai que tanto te adora

parabéns mana :-*

há pessoas na vida das pessoas e tu és uma de muitas que preenche a minha. és diferente, não porque partilhamos do mesmo sangue, és diferente porque, acima de tudo és única. fazes hoje mais um ano e espero, cá bem do fundo, que os dobres. mas não são os que estão para vir que contam, mas os que Deus nos permitiu, até hoje, passar-mos juntos. uns dias juntos, uns dias afastados mas sempre, sempre de mãos dadas ao lado um do outro. é certo que a vida, pelos mais variados motivos, não nos permite certas coisas, e, diz-se por ai que é obra do destino, afastou-nos na distância que nos separa, mas jamais nos separará no amor que nos une.  damos hoje, cada um à sua maneira, mais um passo no caminho da vida. não nos é permitido estar juntos neste dia, mas estarás em todos os segundos que o preenchem no meu coração. quero neste dia desejar-te as maiores felicidades e dizer-te que por vezes as maiores adversidades da vida nos transformam ou podem transformar, na medida em que nos tornamos melhores pessoas e por conseguinte superiores a muitos que nos querem pequenos para que nos possam espezinhar. vamos juntos lutar para que mesmo longe possamos juntos vencer nesta batalha diária que é a vida e movidos pelo desafio, sempre novo, de em cada recomeço fazer todo e qualquer sonho brilhar. quero por isso que, não só hoje, mas em todos os dias que estão para chegar, sorrias. sorri por tudo e que nada impeça esse teu sorriso maravilhoso de mostrar ao mundo o carinho que carregas em ti, mesmo que tenhas a alma ferida e faz do sussurro do vento o transporte dessa felicidade para que a mesma preencha os corações de quem te rodeia. qualquer palavra que aqui possa escrever é ínfima comparada com o sentimento que tenho por ti e com a saudade que hoje sinto, por isso desejo-te a maior das felicidades neste dia que, afinal de contas, é nosso. :-*

a bebida e os escritores

“Tirei a roupa, enfiei-me na cama e fiz estalar outra lata de cerveja.”
– Charles Bukowski

“Porquê beber assim, dois dias seguidos? Dois meses, estações, anos e duas décadas seguidas? Eu respondo. Eu estava com sede”.
– John Berryman

“Bebo exactamente o quanto quero e um gole mais.”
– Henry Louis Mencken

pareidolia

pa·rei·do·li·a
(inglês pareidolia, de para- + grego eídolon, -ou, fantasma, imagem + -ia)

substantivo feminino

Interpretação de um estímulo aleatório e vago, geralmente uma imagem ou um som, com um significado conhecido, por exemplo, atribuindo formas às nuvens.

“Pareidolia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/Pareidolia [consultado em 12-01-2014].